As Histórias

Quando a gravidez se cruza com o cancro

Ser confrontada com o diagnóstico de cancro durante a gravidez é um dos eventos mais dramáticos na vida da mulher

Em cada mil gravidezes, ocorre um caso de cancro

Um mês depois de saber que estava grávida, Dulce, 27 anos, estudante de engenharia, recebeu o diagnóstico de cancro da mama. “Senti que o mundo ruía à minha volta, não acreditei, senti-me perdida, tive medo por mim, pelo bebé, tudo me passou pela cabeça, por uns tempos, fiquei sem saber o que fazer…”

O tempo e a informação que foi recebendo por parte do médico e da equipa que a seguiu devolveram-lhe alguma calma. “Consegui reunir forças para enfrentar a experiência mais dura da minha vida”, conta.

Em cada mil gravidezes, ocorre um caso de cancro, “uma causa frequente de morte em idade reprodutiva”, segundo o médico ginecologista e obstetra, Jorge Lima, professor da Nova Medical School e coordenador do Centro de Alto Risco Obstétrico do Hospital da Luz Lisboa.

Tendo em conta que a idade “é um fator significativo de risco para o cancro” e que a idade materna na primeira gravidez é cada vez mais elevada, a taxa de cancro na gravidez “tenderá a subir”, explica o médico.

Os cancros que surgem na gravidez “são os mais frequentes em pessoas mais jovens, tais como, o cancro da mama e do colo do útero, o linfoma de Hodgkin, o melanoma maligno e o cancro da tiroide”.

Um dos mais comuns no período da gestação e no pós-parto é o cancro da mama. Segundo dados referidos por Jorge Lima, este “ocorre numa em 3000 gravidezes, representando 3% de todos os cancros da mama.”

O cancro do colo é o tumor ginecológico mais frequente na gravidez (1:1200-2200 gravidezes)

Gravidez de Risco

Em todos os casos, a gravidez é sempre considerada de risco. “Representa um paradoxo filosófico e biológico”, refere o obstetra, salientando que “ser confrontada com o diagnóstico de cancro durante a gravidez é, de certo, um dos eventos mais dramáticos na vida da mulher e da sua família.”

O diagnóstico e a abordagem terapêutica da grávida com cancro “são especialmente difíceis porque envolvem duas entidades, a mãe e o feto. Os tratamentos devem ser individualizados permitindo uma terapêutica materna eficaz e, ao mesmo tempo, salvaguardando o bem-estar fetal.”

Além da abordagem feita pelo oncologista e pelo obstetra, a grávida com cancro deverá ser seguida por toda uma equipa multidisciplinar, defende Jorge Lima. Uma equipa que inclua especialistas em oncologia, cirurgia e medicina materno-fetal, “que avaliem os efeitos do tratamento de acordo com as condições maternas e fetais”, algumas das razões “da necessidade de realizar um tratamento individualizado da mulher grávida com cancro”, salienta o médico obstetra.

Na maior dos casos, a gravidez não tem de ser interrompida. O tratamento (cirurgia, a quimioterapia e radioterapia) deverá ser o melhor para a mãe com menor risco fetal possível e dependerá de vários fatores: a idade gestacional; o tipo de cancro; localização, dimensão, estádio do tumor; e o desejo da grávida.

“A cirurgia utilizada no diagnóstico e estadiamento tem muito baixo risco fetal sendo considerada a opção mais segura de tratamento de cancro na gravidez”, diz Jorge Lima, recomendando o adiamento da cirurgia até ao 2º trimestre de forma a reduzir o risco de aborto.

Quando o diagnóstico do cancro é feito no último trimestre da gravidez, “protela-se o tratamento para o pós-parto, podendo em determinados casos ser necessário um parto pré-termo após a realização de maturação pulmonar fetal”, esclarece Jorge Lima, notando que “algumas situações mais precoces de cancro do colo podem ser tratados após o parto.”

Em estadios precoces “podem ser tratados através de conização, enquanto que na doença mais avançada deve ser considerada a cirurgia radical ou a quimio-radiação dependendo do estádio, da idade gestacional e da experiência da instituição. Nas grávidas com mais de 20 semanas de semanas o tratamento pode ser adiado até se atingir a viabilidade e maturidade fetal, não havendo alteração significativa da sobrevivência da mulher”.

Cancros raramente afetam os fetos

A evolução de alguns tipos de cancros piora durante a gravidez. “Estudos pré-clínicos indicaram que os estrogénios desempenham um papel significativo na iniciação e promoção da carcinogénese da mama, pelo que no passado as mulheres eram aconselhadas a evitar uma gravidez após o diagnóstico de cancro da mama devido à preocupação de que níveis elevados de estrogénios e progesterona na gravidez poderiam aumentar o risco de recorrência ou estimular o crescimento de micrometástases”, explica Jorge Lima. “Apesar disso, não existe evidência atual de que a gravidez após o diagnóstico de cancro da mama tenha um impacto negativo no futuro materno. Pelo contrário, alguns investigadores sugerem mesmo um efeito protetor.”

Quanto ao prognóstico para a mulher grávida com cancro é igual ao de outra mulher com a mesma idade e com o mesmo tipo e estádio de cancro, nota Jorge Lima. “No entanto, se tiver havido um atraso no diagnóstico durante a gravidez, ela tenderá a ter um pior prognóstico global do que uma mulher não grávida.”

A gravidez, por outro lado, poderá afetar o comportamento de determinados tumores. “Existe, por exemplo, a evidência de que as alterações hormonais da gravidez podem estimular o crescimento do melanoma maligno.”

A boa notícia é que os cancros raramente afetam os fetos de forma direta. Apesar de alguns metastizarem para a placenta, a maioria não metastiza diretamente para o feto.

De resto, há um conjunto de recomendações, relacionadas com a segurança materna e fetal, que devem ser cumpridas, aconselha Jorge Lima. “ A placenta deve ser sempre submetida a exame macroscópico e histopatológico de forma a excluir metástases; deve ser efetuado exame citológico do sangue do cordão (materno e fetal); se forem identificadas metástases na placenta e no feto, em especial nos melanomas, devem ser efetuados estudos imuno-histoquímicos, citogénéticos e tipagem HLA de forma a identificar o clone maligno; os recém-nascidos devem ser submetidos de seis em seis meses, durante dois anos, a uma avaliação clínica, laboratorial e imagiológica.”

Dulce nunca perdeu a esperança, conciliou o tratamento com a gravidez, derramou lágrimas e inquietações, uma luta que valeu a pena para experimentar a enorme alegria de receber o seu filho nos braços. Continua em vigilância, mas sobram-lhe os motivos para querer viver.

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