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Oncologia: 30% dos doentes pediram apoio mental

Números europeus mostram que a pandemia deixou marcas claras no tratamento de cancros que podem ter consequências graves

Rui Duarte Silva

A oncologia em Portugal (e na Europa) vive um momento crucial e os dados apontam para uma situação periclitante. Os números pan-continentais disponibilizados pela European Cancer Organisation não deixam espaço para dúvidas e traçam o retrato de uma onda cujos principais efeitos já se sentem, mas que podem ter uma repercussão ainda maior no futuro.
O impacto da covid-19 na oncologia manifesta-se não só na progressão, sem o devido acompanhamento, de muitos casos de cancro como também na sobrecarga dos profissionais de saúde, a que se junta outra epidemia, o agravamento da saúde mental — 30% de doentes e cuidadores recorreram, em 2020, a apoio psiquiátrico e psicológico. Ao longo do primeiro ano de pandemia os recursos foram assoberbados e a mistura entre profissionais destacados para o combate à covid-19 e o acesso reduzido a cuidados de saúde, resultaram numa redução de testes de diagnóstico que, também, fixou-se nos 30%.

Na opinião do presidente da Europacolon Portugal, o sistema de saúde até se adaptou da forma possível num primeiro instante mas, “passados quase dois anos”, e com “a certeza que ficaram milhares de diagnósticos por realizar”, Vítor Neves considera não existir “nenhum plano de recuperação para que esses doentes sejam encontrados a tempo de terem tratamento adequado ao seu estado de saúde”. O cenário pintado é duro, com muitos doentes “a serem encontrados com sintomatologia aguda” e apenas a chegarem “ao tratamento por especialidade num estádio muito mais avançado que o normal”. Que não existam ilusões: “As pessoas vão durar muito menos e a mortalidade vai subir.” A prioridade principal passa por libertar os centros de saúde para a sua função de referenciação e implementar “rastreios em todo o país de forma adequada”. Se bem que, para Vítor Neves, a “contínua afetação de médicos de saúde primária vai piorar com a quinta vaga e prejudicar o acompanhamento regular de que os doentes oncológicos necessitam”.

Respostas excecionais

20% dos rastreios ficaram por fazer e 15% viram os tratamentos a mudarem, com casos específicos a merecerem atenção. Veja-se, por exemplo, o cancro de cabeça e pescoço, em que 6,3% dos doentes não começaram o tratamento necessário, 15,8% tiveram a terapia atrasada e 39,2% viram as intervenções médicas interrompidas. “O principal problema para a doença oncológica nestes tempos é o do atraso no diagnóstico”, defende Luís Costa, diretor do Serviço de Oncologia Hospital de Santa Maria, que alerta para a necessidade de “estruturar a resposta ao cancro na preparação de novas vagas possíveis”. Planeamento onde “é crucial manter, reabilitar e reforçar as linhas de atuação para o diagnóstico precoce, rastreio e não só”, o que “exige um grande investimento nos cuidados de saúde primários e no acesso a exames para o diagnóstico e estadiamento do cancro”. Com um alerta que se repete para o facto dos centros de saúde continuarem, “ainda, muito concentrados na questão da pandemia”.

O panorama merece atenção redobrada, com atrasos na referenciação que vão desde os 29% no cancro da mama aos 33% no cancro do sistema digestivo, além do impacto claro, e já referido, no diagnóstico precoce. “A prevenção sofreu a maior reviravolta”, explica a presidente da Associação EVITA, Tamara Milagre. Por outras palavras, “quase deixou de existir, o que se traduziu em maio deste ano com mais 40% de diagnósticos de cancro da mama metastático no Hospital de Santa Maria, por exemplo”. É algo que “parece ter funcionado melhor noutros países europeus”, acredita. “Situações excecionais exigem respostas excecionais”, lança, com um apelo a que não se deixem “os doentes não covid para trás por questões ideológicas. É inconstitucional”. A preocupação ganha forma e “o nível de ansiedade entre os doentes oncológicos está novamente a subir substancialmente”, conclui.

Ansiedade

Os dados da European Cancer Organisation dão conta disso mesmo, com 60% dos doentes a revelarem que sofreram de ansiedade como resultado das implicações da covid-19 para o sistema de saúde, e para os seus tratamentos. José Mário Mariz é médico onco-hematologista no IPO do Porto e, apesar de lembrar que a “hematologia não está abrangida pelos planos de rastreio, ao contrário de outras neoplasias” — e de trabalhar numa instituição onde foi possível manter “a atividade, com mais esforço e sempre com o medo” da infeção — realça que “para combater de forma adequada o cancro, nos próximos meses será necessário manter a normalidade no funcionamento dos hospitais, uma vez que, em condições normais, temos uma resposta adequada”.
A expectativa não é partilhada por todos, sobretudo quando tudo indica que nos encontramos na antecâmara de mais uma vaga pandémica. Vítor Neves deixa mesmo o aviso que, se tudo continuar como está, “só vamos ter noção do que está a acontecer daqui por dois ou três anos”.

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