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Correr, cair, levantar: como treinar contra o cancro

Atividade física. Apesar dos mitos que subsistem, parece cada vez mais consensual que o exercício regular é uma arma fundamental de médicos e doentes na luta oncológica que diariamente travam. A hora é de mudar mentalidades

RUI DUARTE SILVA

Tiago Oliveira

Nem fraturar o fémur parou totalmente António Ricardo. “Ia ao treino de canadianas, mas ia”, conta o reformado de 76 anos a residir em Vila Nova de Gaia. O treino é de walking football, algo que se traduz como futebol a passo: “Foi a melhor coisa que podia ter acontecido. Levantar e saber que tenho treino já me alivia a cabeça. Uma pessoa em casa pensa em tudo.” O diagnóstico de cancro na próstata, que descreve como “galopante”, obrigou-o a uma operação, radioterapia e, no meio de tudo isto, a atividade física para que foi referenciado, e que tem servido como tábua de salvação física e mental. “Só falho mesmo quando não posso”, reforça.

Médica oncologista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, Ana Joaquim é também uma das coordenadoras do OncoMove, programa da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia que promove a atividade física nos doentes oncológicos. “Logo após o diagnóstico, os programas de pré-habilitação, baseados no exercício físico, melhoram a capacidade dos doentes tolerarem os tratamentos e reduzem as complicações e os tempos de internamento pós-operatórios”, explica. No pós-tratamento, “o exercício físico regular e sustentado no tempo reduz a fadiga, a ansiedade e a depressão”, entre outros, “contribuindo para a melhoria da qualidade de vida”. Durante muito tempo “existia a ideia, antiga e errada, de que os doentes com cancro deviam evitar esforços e qualquer tipo de atividade física, de forma a armazenar a energia”, o que Ana Joaquim classifica como “um verdadeiro mito”. Atualmente está provado que “a principal arma para o combate à fadiga induzida pelo cancro é o exercício físico”, sem esquecer “que se devem cumprir algumas premissas”, tais como “a prescrição e acompanhamento das sessões de treino por profissionais qualificados”.

Para Tiago Moreira, criador e coordenador do Quality Onco Life — programa de exercício físico para doentes oncológicos —, parece claro que “a atividade física e o exercício físico são fundamentais na gestão dos riscos modificáveis nesta luta contra o cancro”. Perante a evidência dos benefícios, “é cada vez mais usual haver a recomendação para a prática de exercício físico aos doentes oncológicos”, com “uma das limitações” a prender-se “com o local onde as pessoas o podem fazer de forma orientada e segura”. “Infelizmente”, acrescenta, “os níveis de atividade física em Portugal são muito baixos”, o que dificulta em termos de prevenção e tratamento. O relatório do Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física da Direção-Geral da Saúde mostra que os portugueses aumentaram os seus níveis de atividade física no ano passado, com 54,3% a apresentarem níveis adequados para a promoção da saúde, o que demonstra que “apesar de estarmos a caminhar favoravelmente, ainda há um longo caminho pela frente”, considera.

Quem “tinha uma vida muito sedentária”, e “passava a vida sentada” era a Irmã Dores Spencer, responsável pela secretaria do Colégio de Nossa Senhora da Bonança, em Vila Nova de Gaia. Agora, desde que está a recuperar de um cancro da mama, faz todos os dias de manhã uma caminhada no colégio, além da ginástica que começou a fazer, por indicação médica, para ajudar a enfrentar o tumor. “Ajudou-me muito, faço questão de estar sempre presente. Estamos lá muitas que tivemos a mesma patologia”, conta. Para o presente, continua “em vigilância”, sempre com um “olhar de fé sobre a vida”.

As prioridades que temos

Tratamentos

As terapêuticas habitualmente utilizadas para lidar com doenças oncológicas, como a quimioterapia ou a radioterapia são muito desgastantes para o doente e exigem um grande esforço físico e mental. Por isso, explica a médica oncologista, Ana Joaquim, “durante os tratamentos, programas de exercício físico supervisionados e adaptados diminuem alguns dos efeitos adversos, como a fadiga, a ansiedade e depressão, e melhoram a qualidade de vida”.

Hábitos

Se a atividade física pode ser um complemento tão importante no tratamento da doença oncológica, também é preciso perceber que o exercício regular e os hábitos de vida saudáveis devem ser fomentados em toda a população. “Há alguns estudos que apontam que caso as pessoas correspondessem aos requisitos mínimos de atividade física poderiam ser prevenidos quatro em cada dez cancros”, aponta Tiago Moreira, coordenador do projeto Quality Onco Life.

Rotina

“Temos ao nosso dispor uma arma de prevenção e de habilitação das pessoas para que, após os tratamentos, tenham a melhor performance ou capacidade funcional para continuar a viver bem, que é o exercício físico, desde que devidamente acompanhado. É tão importante como o acompanhamento nutricional e psicológico”, sumariza Ana Joaquim. Ou seja, além do papel na prevenção e tratamento, a atividade física deve assumir um papel relevante no regresso à rotina.

O que anda o TCED a fazer

A atividade física foi o grande motor das mais recentes atividades e iniciativas do Tenho Cancro. E Depois? (TCED), com maio a ser palco de um “Checkup Seguro” (filme explicativo sobre tópicos ligados ao cancro) e de um “Vamos Falar” (evento com especialistas e doentes que foi transmitido em direto nas redes sociais do grupo Impresa na passada sexta-feira, 27 de maio) dedicados ao tópico. Houve lugar ainda para uma reunião de curadores — com destaque para a intervenção do secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales — em que o grupo de especialistas que acompanha em permanência o TCED analisou o panorama da oncologia em Portugal, e procurou elencar as proximidades do combate ao cancro para os próximos temos. Mas não vamos ficar por aqui. Ao longo das próximas semanas será emitido na SIC Notícias um conjunto de cinco reportagens sobre o TCED, ao passo que também poderá consultar um “Checkup Seguro” sobre saúde mental, e aguardar pelo próximo artigo do Expresso sobre o projeto, que terá como temática a importância da nutrição no tratamento dos doentes oncológicos.

TENHO CANCRO. E DEPOIS?

A SIC Notícias e o Expresso lançaram um site — www.tenhocancroedepois.pt — dedicado ao cancro. Ao longo do ano, a plataforma recolherá a opinião de médicos, doentes e especialistas sobre os desafios de uma doença que afeta cada vez mais pessoas. O projeto tem o apoio da Médis e da Novartis, além da colaboração da Liga Portuguesa contra o Cancro e da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

Textos originalmente publicados no Expresso de 3 de junho de 2022

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