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Cancro da mama avançado. "O nosso maior desafio é o de duplicar a sobrevida durante a próxima década"

Quem o diz é Fátima Cardoso, presidente da ABC Global Alliance, organização que está a cargo da realização da maior conferência internacional sobre cancro da mama mestastático, com início agendado para o próximo dia 4 de novembro. Deste evento sairão recomendações que irão ser aplicadas em todo o mundo

Está tudo a postos para mais uma edição da ABC Consensus Conference (Conferência Internacional de Consenso sobre o Cancro da Mama Avançado), que terá lugar entre os dias 4 e 6 de novembro. Este é um evento que ocorre a cada dois anos e que já se consolidou como a maior conferência internacional de cancro da mama avançado. A iniciativa é um fórum que serve para compartilhar as melhores práticas clínicas, informar sobre as últimas atualizações científicas na área e, principalmente, para melhorar os resultados.

A última edição realizou-se presencialmente, em 2019, com a participação de cerca de 1500 pessoas de 90 países distintos e, este ano, pela primeira vez, a conferência será virtual.

“Este é o única conferência do mundo que junta, lado-a-lado, especialistas, doentes e representantes de doentes, assim como todos os stakeholders envolvidos na temática do cancro da mama avançado. Nunca esquecemos a perspetiva do doente”, lembra Fátima Cardoso, presidente da ABC Global Alliance e diretora da Unidade da Mama do Centro Clínico da Fundação Champalimaud.

A organização da conferência é feita pela ABC Global Alliance - criada em 2016 como uma iniciativa da European School of Oncology e, agora, registada como uma associação sem fins lucrativos em Portugal. No fundo, funciona como sendo uma plataforma aberta a todos os interessados em colaborar em projetos comuns relacionados com o cancro da mama avançado ou Advanced Breast Cancer (ABC ) ao redor do mundo.

Nesta sexta edição da conferência ( designada de ABC6) , todos os tópicos serão apresentados na perspectiva de uma abordagem multidisciplinar e multiprofissional, desde a pesquisa básica até a implementação clínica.

O grande objetivo deste evento é o de criar guidelines de recomendações (atualizadas a cada dois anos) sobre como tratar esta doença. “Estas recomendações são depois usadas em todo o mundo para tratar estes doentes, sendo que os países fazem alterações destas recomendações adaptadas às suas realidades, visto que nem todos os tratamentos estão disponíveis em todos os lugares para todos os doentes”.

As recomendações não se dedicam exclusivamente a fármacos, mas sim a toda a problemática da doença numa perspetiva holística.

Fátima Cardoso é presidente da ABC Global Alliance desde 2019

Fátima Cardoso é presidente da ABC Global Alliance desde 2019

Joao Girao

“Ninguém sabe quantas pessoas há no mundo com cancro da mama mestastizado"

Desde o ano passado que os dados da Globocan mostram que o cancro da mama é o cancro com maior incidência em todo o mundo. Tem, no entanto, uma taxa de cura de cerca de 70% - , o que quer dizer que 30% das pessoas não se cura. Sendo o cancro mais incidente, significa que esta percentagem representa muita gente. “Cada ano são diagnosticados 2.1 milhões de novos casos de cancro da mama e morrem mais de 600 mil pessoas com esta neoplasia maligna. 99% são mulheres”.

Mas se falarmos em cancro da mama mestastizado, chegar a números fidedignos é tarefa difícil. “Ninguém sabe quantas pessoas há no mundo com cancro da mama mestastizado porque temos o problema grave de os registos oncológicos - incluíndo o português - registarem o diagnóstico e a morte, mas não registam a recidiva. Há, no entanto, uma estimativa de advém da prevalência ( pessoas que tiveram diagnóstico de cancro da mama nos últimos cinco anos e ainda estão vivas, incluindo todos os sobreviventes e aqueles que vivem com doença metastática). Este número corresponde a 8 milhões de pessoas em todo o mundo e estima-se que cerca de 1/3 corresponda unicamente a doentes metastáticos.

Em Portugal, são cerca 6 mil e 500 novos casos de cancro da mama, por ano, e mais de 1500 mortes.

“Uma das grandes lutas da Global Alliance é mudar a forma como os registos são feitos. Uma das propostas da instituição, no âmbito do Plano Europeu de Combate ao Cancro, foi que o Registo Oncológico Europeu pudesse contar os doentes com cancro avançado, não só da mama, mas de todos os outros cancros. "Os doentes pedem: contem-nos! Nós queremos ser contados e queremos que não se esqueçam que existimos, revela Fátima Cardoso.

Países como a Alemanha, França e Holanda já iniciaram este registo.

Principais desafios e objetivos da ABC Global Alliance

- Duplicar a sobrevida média (atualmente ronda os 3 anos) na próxima década. O desafio começou em 2015 e o objetivo espera ser atingido em 2025.

- Garantir o acesso aos tratamentos que verdadeiramente modificam os dados. O acesso a estes medicamentos é dificultado por dois motivos: por uma lado, são caros e , por outro, nem sempre são disponibilizados a tempo. “Portugal é o pior país da Europa, em termos de tempo médio até que os medicamentos sejam disponibilizados, só ultrapassado pelos países do leste europeu", refere Fátima Cardoso.

- Combater o preconceito e falar abertamente sobre o cancro da mama metastático;

- Garantir a flexibilidade no trabalho, mudando a abordagem por parte das entidades empregadoras.

"Um doente ou sobrevivente pode continuar a ser um membro produtivo no trabalho se lhes for dada essa flexibilidade", garante a presidente da Global Alliance.

De recordar que, no passado dia 13 de outubro, se assinalou o dia do Cancro da Mama Metastático, no âmbito do movimento Outubro Rosa. Não obstante, Fátima Cardoso diz que "precisamos que se lembrem destes doentes mais do que um dia só", destacando que "é crucial passar a mensagem da importância do diagnóstico precoce, mas não nos podemos esquecer do grupo de doentes que, infelizmente, tem recidivas".

Para consultar o programa da conferência ABC6, clique AQUI.

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