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Cancro, um problema que é de todos

O resumo da reunião de curadores, organizada pelo "Tenho Cancro. E depois?", que serviu para fazer o ponto de situação do estado da oncologia em Portugal, identificando lacunas e traçando soluções futuras, numa altura em que o novo Programa Nacional para as Doenças Oncológicas está prestes a ser divulgado

A reunião de curadores do "Tenho Cancro. E depois?" juntou os especialistas que integram o projeto de forma a fazer o ponto de situação atual da oncologia nacional.

"Não podemos mascarar, enquanto governo, nem mascarar, enquanto sociedade, a problemática do cancro", António Lacerda Sales

António Lacerda Sales, secretário de Estado Adjunto e da Saúde, recordou na abertura da sessão os principais números, como este, que refletem a dimensão da questão: em Portugal surgem 6 novos cancros por hora, afirmando que "não podemos mascarar - enquanto governo - nem mascarar, enquanto sociedade, a problemática do cancro".

O próximo passo será a divulgação do Plano Nacional para as Doenças Oncológicas. Apesar da importância da sua elaboração, os especialistas põe a tónica na implementação do mesmo, recordando que o documento em questão deve estar alinhado com as metas traçadas pela Comissão Europeia, questão que José Dinis, coordenador do plano, já garantiu ao dizer que "devemos estar com um olho em Portugal e outro na Europa".

Organização é a palavra de ordem

Mesmo conscientes da falta de recursos, a maior parte dos especialistas acredita que muitos dos problemas mais prementes da oncologia se resolveriam com melhor organização. "Não há país nenhum que consiga formar oncologistas suficientes", explica Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro Clínico da Fundação Champalimaud, recordando, ainda, que em breve 1 em cada 2 portugueses vai ter cancro (atualmente a proporção está em 1 em cada 3). A especialista aponta para o "desperdício e uso desnecessário de recursos", como um dos problemas a resolver.

Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), corrobora a mesma ideia. "Tudo se baseia em organização", diz, referindo - por exemplo - que um único sistema informático devia ser implementado em todas as instituições para facilitar o registo e acesso a dados. O excesso de burocratização e a falta de centros de referência foram outros dois pontos apontados que poderão ser resolvidos através de uma organização mais eficaz do sistema.

Na área da investigação, Maria Rita Dionísio, diretora médica da Unidade de Oncologia da Novartis, considera que o problema é também "uma questão de organização". Mesmo sendo um país pequeno "o nosso problema não é falta de massa crítica", considera, frisando que "não há melhor maneira de tratar um doente oncológico sem ser dentro de um ensaio clínico".

Acesso para todos

"Muitos doentes estão longe do centro de tratamento e temos que dar oportunidade a essas pessoas de encontrarem a tempo um tratamento", defende Vítor Neves, presidente da Europacolon Portugal, frisando o "papel importante" que as associações podem ter, devendo por isso ser ouvidas, uma vez que conhecem de perto a realidade e as dificuldades da população oncológica. "Temos que tentar ter um política única para melhorar a qualidade de vida e a longevidade destas pessoas. A saúde em Portugal não é só um problema deste governo", remata Vítor Neves.

Na verdade, os especialistas acreditam que muitos portugueses - sobretudo os que estão geograficamente longe dos centros de tratamento - são prejudicados.

Para Francisco Cavaleiro de Ferreira, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), o mais urgente é focar no acesso aos cuidados de saúde primários, principal porta de entrada no SNS, para que este seja retomado e melhorado de forma a garantir "um dignóstico mais célere".

Rui Henrique, presidente do IPO do Porto, reforçou a importância da existência de "estruturas amplas a nível regional" que possam responder eficazmente e com qualidade às necessidades dos doentes.

"É preciso servir toda a população", afirma Fátima Cardoso

Mais prevenção e literacia

Margarida Ornelas, presidente do IPO de Coimbra, acredita que a ação prioritária da oncologia nacional deve passar por um eixo estratégico que englobe prevenção e literacia. O cidadão deve, portanto, ter um papel ativo na sua saúde, adotando hábitos de vida saudáveis e aumentando o seu conhecimento nesta área.

Opinião partilhada por Pedro Correia, responsável de Operações da Médis, ao referir que "devemos investir na promoção de hábitos de vida saudáveis, porque sabemos que 40% dos cancros são evitáveis".

No que diz respeito ao cancro hereditário, Tamara Milagre, presidente da associação EVITA, recorda que 10% de todos os cancro são hereditários e, por isso mesmo, "são evitáveis", dizendo que a prevenção sempre foi "a sua máxima". A especialista aponta ainda outra lacuna presente no Registo Oncológico Nacional (RON): "Este registo não discrimina o cancro hereditário do esporádico", sendo por isso mais difícil perceber os contornos deste tipo específico de cancro que, muitas vezes, aparece em pessoas novas e, por consequência, em idade produtiva.

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